Lavadeiras do Sabugo

Quem eram as Lavadeiras?

Sem nos preocuparmos agora com pormenores locais, podemos afirmar que eram gente humilde, que habitavam nos arredores de Lisboa, no Tojalinho, em Caneças, Á dos Calvos, em Fanhões, no Sabugo, em Belas, em Loures, na Malveira, etc.

Alcançaram algum prestígio em detrimento de profissional "alfacinha", impondo-se pela sua graciosidade e pela sinceridade quase ingénua com que lidavam com as freguesas, as denominadas "senhoras".

Onde lavavam?

Nos mais diversos locais, é o que podemos afirmar e vamos enumerar alguns.

Nos tanques denominados por almácegas, normalmente construídos por maridos ou familiares e de uso reservado. Havia também quem lavasse nos rios de água corrente, ajeitando cada lavadeira o seu próprio lavadouro. Faziam-no de joalheiras para não ferir os joelhos e poupar as vestes, dado o elevado número de horas de trabalho a que se submetiam, batendo a roupa mais grossa com a "malha", apetrecho essencial nesta tarefa.

Quando presentes, confiavam aos maridos a tarefa de estender nos "tojos" circundantes dos rios de água corrente e almácegas, a roupa das freguesas. No rio surgiam espontaneamente as "cantigas ao desafio"...

A ida até Lisboa

A partida ao carregar das trouxas, era feita entre a 1 e as 2 horas da madrugada de Domingo para segunda-feira, consoante o local de onde se deslocavam. As portas de Benfica e a calçada de Carriche eram verdadeiros entrepostos da actividade, sendo alcançados cerca das 5 horas da manhã. No início do século deslocavam-se de burro, dois cestos " calhau" um de cada lado e a lavadeira em cima da albarda; iam também de carroça puxada por uma parelha de mulas ou machos com quatro ou cinco lavadeiras empoleiradas no cimo.

Outras, com melhores meios, deslocavam-se de galera; mais tarde; por volta dos anos vinte, começaram a fazer o trajecto em camionetas de caixa aberta, que alugavam.

No início do século, era atribulada a viagem, já que as lavadeiras tinham de fazer parte do percurso a pé, quando a estrada inclinava. Normalmente, nas carroças, iam em cima das trouxas, sendo estas presas com cordas de icrir; como já referimos, cada carroça levava, em média, quatro e ás vezes cinco mulheres.

Eram frequentes os problemas, já que amiudadamente, devido ao peso, rebentavam os cilhões dos machos que se prendiam junto aos varais.

Uma vez nas Portas de Benfica ou nas mediações da Calçada de Carriche, cada lavadeira seguia o seu destino. Do campo grande à Rua da Cruz (aos poiais de S. Bento) passando, entre outros locais, pela Rua das Adelas, Rua do Século, Rua da Boa vista, etc.

Dos Carroceiros, havia quem acompanhasse as Lavadeiras até às estalagens da sua referência, tendo em atenção o factor qualidade - preço, e quem de imediato regressasse às suas terras para tratar dos animais e do bocadito de terra que amanhavam ; estes voltam a Lisboa no dia seguinte para, no local combinado, recolherem a companheira e as demais que a ela se associavam, por não terem transporte próprio.

Nas suas terras

Ao anoitecer de cada terça-feira, chegavam às suas casas e novas tarefas se lhe deparavam, normalmente ao serão, com a ajuda das filhas mais velhas e das chamadas mulheres de fora, apartando a roupa que estas, de imediato, levavam, já distribuídas por diferentes qualidades: branca, de cor, fronhas, lençóis, etc.

Para evitar trocas, sempre desagradáveis, recorriam ao sinal que, semana após semana, identificava ser pertença da senhora sicrano ou da senhora beltrano, a peça tal.

Era então quarta-feira e, manhã cedo, nas almácegas ou no rio, com a ajuda das filhas, que começavam a lavar ainda crianças, e dos maridos que as transportavam, deitavam mãos à obra. No rio ou nas almácegas, esfregavam as peças mais delicadas e caras, enquanto as filhas lavavam as peças mais pequenas e soltas.

As mais difíceis, após prévia verificação, eram destinadas à barrela, normalmente feita num telheiro, dentro de um enorme alguidar de barro onde a roupa era acamada e depois coberta com cinza. De seguida colocava-se água a ferver, entretanto preparada. A roupa ficava então macia como veludo e, após uma pequena lavagem com sabão, era posta ao sol, a corar. De quando em vez era borrifada, para não encarquilhar, depois ia de novo à água para tirar o sabão que restava, ficando limpa e " desencascada", então se dizia...

Aconteciam idênticas tarefas nos dias de quinta-feira, sexta-feira e Sábado; o Domingo era reservado à secagem e à dobragem de alguma peça mais difícil que, no Inverno, custava mais a secar.

A distribuição em Lisboa, o anunciar da chegada, os preços por volta de 1915...

A roupa era levada já toda separada por freguesas; ficava uma parte na estalagem (verdadeiros entrepostos desta actividade) enquanto as lavadeiras iam visitar as suas freguesas, para entrega da roupa lavada e recolha da suja. Ao bater à porta a lavadeira fazia-se anunciar com um bem sonante "LAVADEIRA" ou "LAVANDEIRA", como então se pronunciava.

Era comum que, em determinadas casas ricas, pelas 10 ou 10h30 da manhã de segunda-feira, já estaria preparado o almoço de garfo, a contar com a lavadeira, era a confiança e estima a que as mesmas eram votadas; não era raro, aliás, transmitir, de mãe para filha, a lavagem de roupa da senhora tal.

A título de curiosidade, refiram-se os preços de então:

Convém dizer que as saloias (ou mulheres de fora) recebiam das lavadeiras propriamente ditas, por cada 5 tostões de facturação às freguesas, 1 tostão pelo seu trabalho de lavagem. É pouco, talvez, mas não esqueçamos todavia que as lavadeiras tinham de suportar encargos tais com o sabão, o transporte de carroça e a manutenção dos animais, acautelando ainda a jorna do carroceiro que, por vis da deslocação a Lisboa, se via privado de trabalhar o seu bocado de terra.

Muito mais haveria a dizer desta quase extinta, ou mesmo extinta, profissão, já que não abordámos a questão do seu traje, dos seus hábitos na cidade de Lisboa, do comércio paralelo que exerciam com a profissão de lavadeira nem, por fim, das amizades que granjearam, algumas das quais ainda perduram, já que foi intermédio das lavadeiras que as gentes da cidade, nas décadas de trinta e quarenta, começaram a "fundar", nos arredores da capital, autênticas colónias de veraneantes na época do estio.

Curiosidades e Estórias das Lavadeiras, Carroceiros e Outras Gentes Saloias

*Por João de Deus Leal

 

Por toda a freguesia de Almargem do Bispo, concelho de Sintra, a que pertence o Sabugo, há memórias e registos da existência das lavadeiras e carroceiros.

 

Os Negrais são a excepção, porventura devido à sua localização geográfica (é das localidades mais afastadas de Lisboa) e à existência nesse tempo das indústrias de extracção de mármores (hoje quase inactiva) e do leitão assado, essa sim florescente, com grande dinâmica e em franca divulgação e expansão.

 

Se a memória de alguns dos mais idosos habitantes das nossas terras (1) nos leva a lavadeiras do tempo da Condessa d'Edla (2) e do famigerado Diogo Alves (3) os registos dos livros paroquiais de baptismos referem nas mães e avós dos nascidos a presença de lavadeiras já nos primeiros anos do século XIX (1801 em frente).

 

Por seu lado o carroceiro, figura indissociável da lavadeira, frequentemente seu marido, como dividia o seu tempo diário ou semanal por várias ocupações (trabalhador rural, transporte de mercadorias ou materiais, apanha de mato, etc) não viu essa designação ser reconhecida correntemente nos registos e são por isso raros os casos referidos. Podemos sim e também a par de duas, três dezenas de carroceiros mencionados por gentes mais antigas, encontrar nos Arquivos Municipais de Lisboa o registo das " cartas de condução " da época que juntamente com várias posturas e editais camarários começaram a ser emitidas em 1864 na tentativa de disciplinar o trânsito desordenado que se verificava na Lisboa oitocentista.

 

Os exames para condutor de veículos de 1 animal ou 2 e mais animais eram realizados ali para Santos, ao pé do mercado da Ribeira e os candidatos aprovados (4) recebiam depois a sua matrícula de carroceiro.(5)

 

Assim podemos referir que o 1º carroceiro encartado da nossa freguesia foi um tal José Francisco que obteve a sua matrícula de carroceiro em Maio de 1864 e residia no Sabugo.

 

(1) De acordo com o Roteiro de Almargem do Bispo, edição da sua Junta de Freguesia, a freguesia de Almargem do Bispo tem a área de 37 Km2, 8.471 habitantes (segundo o censo de 2001) e é constituída actualmente (dados de 2005) por 10 povoações: ALBOGAS, ALMORNOS, ALMARGEM DO BISPO, ARUIL, CAMARÕES, COVAS DE FERRO, DONA MARIA, NEGRAIS, SABUGO, VALE de LOBOS e 6 pequenos lugares: ALFOUVAR, MASTRONTAS, OLIVAL SANTÍSSIMO, OLELAS, PEDRA FURADA e SANTA EULÁLIA.

De tempos mais recuados existiram ou ficaram no entanto as seguintes designações de ainda mais pequenos lugares, hoje alguns absorvidos nas povoações, outros com esperança de desenvolvimento e que gostaremos de aqui mencionar:

Alto do Miradouro, Alveijar, Aruil de Baixo, Aruil de Cima, Barruncheira, Biqueirão, Boavista, Casal da Abegoaria, Casal da Feiteira, Casal da Freira, Casal da Granja de Stª Cruz, Casal da Serra, Casal de Albergaria, Casal de Quintanelas, Casal de Vale Figueira, Casal do Carniceiro, Casal do Falcão, Casal do Livro, Casal do Malveiro, Casal do Rebolo, Casal dos Gafanhotos,Casal dos Gosmos, Chamouca, Charca, Corgas, Fonte da Aranha, Fonte da Pedra, Fonte do Lobo, Fonte Ruiva, Ginjal, Machado, Mancebas, Moinho do Farelo, Outeiro, Piedade da Serra, Portela de Almornos, Priores, Quevados, Rapoula, Serração de Vale de Lobos, Tapada da Serra, Tapada de Vale de Lobos, Vale da Moura, Vale de Almornos.

(2) Elise Friederick Hensler (1836-1929) suíço-alemã, cantora de ópera e condessa d'Edla após o casamento a 10 de Junho de 1869 com D. Fernando II, O Rei-Artista, a quem Sintra muito deve.

(3) Diogo Alves, o célebre assaltante de lavadeiras no Aqueduto das Águas Livres e que foi o último condenado à morte, em 1841, antes da abolição dessa pena em Portugal.

(4) Da análise dos registos constata-se que chegavam a Lisboa gentes provenientes de todo o território nacional continental.

(5) A "Carta de Condução" designada por matrícula de carroceiro.

 

Nem só homens a tiravam. A que se apresenta abaixo foi da, provavelmente, última lavadeira a exercer a sua profissão. Com efeito a Maria Rosária (1907-2004) conhecida pela Maria "Baixinha" entregou roupa em Lisboa às suas freguesas até à idade de 88 anos (1995) como nos referiu nas agradáveis conversas que ainda tivemos oportunidade de ter nos seus últimos anos de vida. Já não nos seirões, ou em trouxas incridas e carregadas por machos ou mulas, ou nas galeras e carroças, nos comboios, ou nas camionetas do Ti Manel Leiria ou do Alfredo Leiria mas sim nas camionetas da Rodoviária.

Carta de Carroceiro

Carta de Carroceiro

 

 

(*) Responsável por esta rubrica. É componente e Director do rancho folclórico "As Lavadeiras do Sabugo ". Desde já agradecemos e serão muito bem vindas todas as informações complementares, dados, estórias, fotografias sobre as nossas lavadeiras, carroceiros e outras gentes saloias antigas, assim como eventuais correcções sobre quaisquer inexactidões que porventura venham a ser escritas neste espaço e que tenham a amabilidade de nos referir.

Poderão contactá-lo pelo telemóvel 963005066.

 
 
 
 
 
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